segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

CARTA ABERTA AOS PAIS CRISTÃOS DE FILHOS INCRÉDULOS



“E o nosso filho?”, “E a nossa filha?”. Como pastor, há conversas que eu rotineiramente tenho com os membros da minha igreja. Uma das interações tenho regularmente ao longo dos últimos anos começa com um dos pais cristãos, ou ambos os pais, aproximando-se com olhares cabisbaixos. O desânimo, e muitas vezes até mesmo o desespero, são aparentes nos seus olhares. As primeiras palavras são “Pastor, você poderia orar pelo nosso filho?” ou “Pastor, que conselho você nos daria para a situação do nosso filho?”. Aí eles continuam explicando que o filho, agora adulto, deixou a fé. Com angústia nas palavras, detalham como eles o criaram na fé: a criança esteve na escola dominical todas as semanas, participou da adoração comunitária e fez parte do grupo de jovens. E, algumas vezes, eles me dizem que o filho era um modelo de virtude e parecia amar o Senhor nos anos da adolescência. Seus pais não foram reservados ao compartilhar a fé com seus filhos em casa e eles tentaram rodeá-los com amigos bons e piedosos. Mas agora, tristemente, seus filhos rejeitaram a Cristo. Eles estão vivendo uma vida de incredulidade e seus pais estão cheios de pesar.

O que deve fazer um pai cristão de um filho incrédulo na fase adulta? Eu geralmente ofereço três encorajamentos pastorais: lembre-se do passado, ore no presente e tenha esperança no futuro.

Querido pai cristão, primeiro você precisa lembrar do passado. Você passou anos plantando a semente da verdade da palavra de Deus na vida do seu filho. Você os ensinou a Palavra de Deus, orou por eles, os trouxe à igreja semana após semana, e os direcionou à Cristo através das suas conversas e ações. Você fez isso perfeitamente? Não. Quem o faria? Mas você plantou as sementes da verdade. E Deus diz que a Sua Palavra não volta vazia (Is 55.11), é viva e eficaz (Heb 4.12) e traz salvação aos que a ouvem (Rm 10.14). Estas sementes da verdade clamarão a eles até o fim de suas vidas. No presente, você precisa lembrar de toda a verdade que eles encontraram no passado e confiar que Deus agirá pelos Seus meios determinados.

Segundo, ore no presente. Vários pais tem me perguntado como eles podem continuar chamando seus filhos à fé e ainda tratá-los como adultos. Eu os digo para aproveitarem momentos e compartilhar pequenas verdades do Evangelho aqui e ali. Nem toda conversa precisa ser um sermão evangelístico, mas um pensamento ou uma verdade bem colocada pode ser inestimável. Isto é necessário e bom, mas tão importante quanto é a oração contínua e fiel. Não pare de pedir ao seu Pai Celeste para ouvir e responder sua oração. Como a viúva persistente, continue orando até a petição ser realizada (Lc 18). Recrute amigos, presbíteros, e seus pastores para orar pelo seu filho. Faça disso a oração que você ora quando desperta e quando se deita, porque as orações do justo muito podem (Tg 5.16). Suas orações agindo, com a Palavra do Senhor plantada no passado, podem ser precisamente os meios pelos quais seu filho ou filha será convertido.

Terceiro, esperança para o futuro. Não desespere. Confie em Deus, tenha esperança, e ore para que se voltem para Ele. Estão eles muito longe? Claro que não! Nunca permita que o nosso adversário semeie tais sementes de dúvidas. Não importa quão grande seja o pecado deles, não importa quão duro o coração, não importa quão firme a sua determinação, não importa quão estridente as suas línguas, o nosso Senhor pode operar o milagre da conversão num piscar de olhos. Creia e espere que o Senhor pode e fará a obra. Parece sem esperança? Parece impossível? Bom, eu tenho boas notícias, nosso Deus é um Deus especializado em coisas aparentemente sem esperança e impossíveis.

Querido pai cristão, sua provação é grande, mas o seu Deus é ainda maior. Ele não é cego para com a sua angústia e Ele não ignora as orações dos Seus filhos. Que Deus possa ouvir o clamor do teu coração, responder, e operar na vida do seu filho. Que Ele tome o seu filho e o faça um filho Dele próprio. Ele é digno da nossa confiança, derrame o teu coração diante Dele (Sl 62.8).


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HELOPOULOS, Jason. Traduzido por Nayara Andrejczyk. Texto extraído do site: Reforma21.org. Original em: <http://www.christwardcollective.org/christward/an-open-letter-to-christian-parents-of-unbelieving-adult-children>.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

COMEMORANDO O NATAL NA VISÃO REFORMADA



Por esses dias, com o clima de natal no ar, procurei estudar um pouco mais sobre o assunto. Em uma de minhas pesquisas encontre um texto que afirmava com toda a convicção de que o natal deveria ser uma data guardada por todos os cristãos, e nesse texto o autor utilizava alguns símbolos de fé reformado. Em outros textos, vi pessoas contra a ideia a ponto de taxar do texto que citei. Mas, diante tudo isso pude compreender um pouco mais sobre os dois pontos de vista, vejamos então:

Visões reformadas que defendem a guarda do natal pelos cristãos

A primeira fonte que podemos observar é a Segunda Confissão Helvética. Essa Confissão foi um importantíssimo documento escrito pelo reformador protestante suíço Johann Heinrich Bullinger, que se tornou pastor da igreja de Zurique na Suíça em 1533 e foi um importante teólogo da Reforma Protestante. O historiador presbiteriano Alderi Souza de Matos, ao fala sobre essa Confissão, diz que:
“[...] vários colegas de diferentes cidades, escreveu a Primeira Confissão Helvética (1536), que se tornou a primeira declaração da fé reformada com autoridade nacional. A Segunda Confissão Helvética mantém a mesma estrutura, mas foi inteiramente redigida por Bullinger. Foi composta inicialmente após um parecer favorável do reformador Martin Bucer (1561), sendo reescrita durante uma epidemia na qual Bullinger julgou que iria morrer (1562). Ele anexou a confissão ao seu testamento como uma dádiva final à cidade de Zurique […] Posteriormente foi recebida na Escócia, Hungria, França, Polônia, Inglaterra e Holanda, tornando-se, ao lado do Catecismo de Heidelberg, o documento reformado mais estimado e influente”.[1]
Não há dúvidas de que a Segunda Confissão Helvética é um dos documentos mais importantes e influentes da história da teologia reformada, e nesta Confissão encontramos a seguinte informação:
24. Dos dias santos, dos jejuns e da escolha dos alimentos:
O tempo necessário para o culto. Embora não esteja a religião limitada pelo tempo, contudo não pode ser cultivada ou praticada sem distribuição e arranjo próprio do tempo. Toda igreja, portanto, escolhe determinado horário para as orações públicas, a pregação do Evangelho e a celebração dos sacramentos, não sendo permitido a ninguém transtornar esse horário da igreja a seu bel prazer. Pois, a não ser que algum tempo livre seja reservado ao exercício da religião, sem dúvida os homens absorvidos pelos seus negócios, estariam afastados dela.
O Dia do Senhor. Por isso vemos que nas igrejas antigas não havia apenas certas horas da semana destinadas às reuniões, mas que também o Dia do Senhor, desde o tempo dos apóstolos, fora separado para as mesmas, e para o santo repouso, prática essa, acertadamente preservada por nossas igrejas para fins de culto e serviço de amor. 
Superstição. Neste ponto, entretanto, não cedemos às observâncias dos judeus e às superstições. Pois, não cremos que um dia seja mais santo do que outro, nem pensamos que o repouso em si mesmo seja aceitável a Deus. Além disso, guardamos o Dia do Senhor, e não o sábado como livre observância. 
As festas de Cristo e dos santos. Ademais, se na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e sua ascensão ao céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos, damos-lhes plena aprovação. Não aprovamos, contudo, as festas instituídas em honra de homens ou dos santos. Os dias santificados têm a ver com a primeira Tábua da Lei e só a Deus pertencem. Finalmente, os dias santificados, instituídos em honra dos santos, os quais abolimos, têm muito de absurdo e inútil, e não devem ser tolerados. Entretanto, confessamos que a lembrança dos santos, em hora e lugar apropriados, pode ser recomendada de modo aproveitável ao povo em sermões, e os seus santos exemplos, apresentados como dignos de serem imitados por todos.[2]
Está claro nesse documento, considerado um dos mais importantes da história da fé reformada, que a tradição reformada desde o princípio defendeu que os cristãos têm liberdade para comemorar o natal, ademais, se na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, é dada plena aprovação. O renomado historiador Phillip Schaeff escreveu sobre como o próprio Bullinger vivia essa liberdade com sua família: 
“A casa de Bullinger era um lar cristão feliz. Ele gostava de brincar com seus numerosos filhos e netos e de escrever pequenos versos para eles no Natal, como Lutero”.[3]

Depois da Segunda Confissão Helvética, vemos também a mesma liberdade no Sínodo de Dort, que deu origem aos famosos cinco pontos do calvinismo – popularmente conhecidos com TULIP. Além de refutar o arminianismo nos “Cânones de Dort”, o Sínodo também aprovou a “Ordem de Dort”. Neste documento, emitido pelo mesmo Sínodo que nos deu a TULIP, encontramos no artigo 67 ordens para que as igrejas da Holanda comemorassem o Natal, a Páscoa e o Pentecostes, vejamos:
“Além do Domingo, as congregações também observarão o Natal, a Páscoa e o Pentecostes”.[4]
No artigo 63, também encontramos referências às três festas: 
“A Ceia do Senhor será observada uma vez a cada dois meses, na medida do possível. Também é edificante, onde quer que as circunstâncias das igrejas permitam, que o mesmo aconteça na Páscoa, no Pentecostes e no Natal”.[5]

Visões reformadas que se opõem à guarda do natal pelos cristãos

Alguns teólogos que são contra a guarda do natal pelos cristãos, concordam que alguns ramos reformados não condenaram a observância de todos os dias santos instituídos pela Igreja Católica, e que essa posição aberta com relação à aplicação do princípio regulador ao calendário eclesiástico ocorreu especialmente nos Países Baixos, sendo registrada em dois símbolos de fé originários desta região (a Segunda Confissão Helvética e os Cânones de Dort), e embora elas não prescrevam, admitem a observância de vários dias do calendário cristão, incluindo os dias de nascimento, circuncisão, paixão, ressurreição e ascensão do Senhor e o dia de pentecostes, com base na ‘liberdade cristã. Mas utilizam Beza, uma das maiores figuras da Teologia Reformada, para ir contra essa posição:
“Quanto a outros dias de festas, nós os abolimos tanto quanto possível do nosso meio, especialmente aqueles introduzidos por meio de manifesta idolatria […] No entanto, porquanto há certas festividades instituídas desde tempos antigos, para a celebração de certos mistérios concernentes à redenção, usamos a liberdade cristã, e submetemos tudo para a edificação, de acordo com as diferentes circunstâncias de lugares, tempos e pessoas".[6]
Utilizam também alguns testemunhos confessionais como o Diretório para o Culto Público de Westminster:
“Na Bíblia não há nenhum Dia que seja ordenado para ser guardado como santo sob o Evangelho, senão o Dia do Senhor, que é o Sábado Cristão. Os dias de festa, comumente chamados de dias Santos, nã…o tendo base na Palavra de Deus, não devem ser continuados”.[7]

A assembleia geral da Igreja da Escócia do ano de 1575, que em uns dos artigos encontra-se o seguinte:
“Que todos os dias anteriormente denominados ‘santos’, além do dia do Senhor, como o Natal e outros, sejam abolidos, e que uma …penalidade civil seja imposta contra os que guardam tais cerimônias banqueteando, jejuando e com outras vaidades”.[8]

Já John Knox, reformador escocês, originador do presbiterianismo, diz que:
“Qualquer coisa que homens, por leis, concílios ou constituições têm imposto sobre as consciências dos homens, sem mandamento expresso da Palavra de Deus: tais como votos de castidade, promessas antecipadas [...] de casamento, imposição a homens e mulheres do uso de diversas vestes especiais, observância supersticiosa de dias de jejuns, abstinência de alimentos por motivo de consciência, oração pelos mortos, e a guarda de dias santos instituídos por homens, tais como todos aqueles que os papistas têm inventado, como as festas dos Apóstolos, Mártires, Virgens, Natal, Circuncisão, Epifania (Reis), Purificação e outras festas apreciadas por Nossa Senhora. Coisas estas que, não tendo nem mandamento nem garantia nas Escrituras de Deus, julgamos devam ser completamente abolidas do nosso Reino; declarando ainda, que obstinados observadores e ensinadores de tais abominações não devem escapar à punição do magistrado civil”.[9]
Por fim, é observável o que diz a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) sobre o assunto no seu manual de princípios de liturgia, que reconhece apenas o dia do Senhor, o domingo, e os dias de jejum e ações de graças como observável. No artigo 1º, ele diz o seguinte:
“É dever de […] todos os homens lembrar-se do dia do Senhor (domingo) e preparar-se com antecedência para guardá-lo. todos os negócios temporais devem ser postos de parte e ordenados de tal sorte que não os impeçam de santificar o domingo pelo modo requerido nas Sagradas Escrituras”.[10]
Interessante é o que o documento diz no seu artigo 24:
“Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças”.[11]
Enfim, podemos observar então duas posições opostas dentro da tradição reformada, ambos com base documental e com grandes referências da Teologia Reformada. Fica agora a avaliação de cada leitor, e o desafio para um estudo mais profundo sobre o assunto. Creio que assim como fui motivado a investigar mais a fundo sobre o tema, os leitores também serão depois de ler essas afirmações.


Notas:

[1] Portal Mackenzie: <http://www.mackenzie.br/7056.html>
[2] Confissão de Fé Helvética.
[3] Phillip Schaeff, History of the Christian Church, Volume VIII: “The Swiss Reformation”.
[4] Canônes de Dort.
[5] Ibid.
[6] Theodore Beza, The Christian Faith, trans. James Clark [East Sussex, England: Focus Christian Ministries Trust], 107-8.
[7] Diretório de Culto de Westminster. São Paulo: Os Puritanos, 2000. p. 66.
[8] Citado em Bryan Schwertley, The Regulative Principle of Worship and Christmas. Artigo extraído do site http://www.reformedonline.com/ em 25 de Novembro de 2010.
[9] Citado em Paulo Anglada, O Natal, o Culto e a Fé Reformada. p. 49.
[10] Princípios de Liturgia, in Manual Presbiteriano. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 143.
[11] Ibid.


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FÉRES, Leonan. 08 de dezembro de 2016, Goiânia, GO.



domingo, 4 de dezembro de 2016

A BÍBLIA PERMITE O CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS?



Poucos assuntos têm gerado mais acalorado debate entre os cristãos do que aquele sobre a moralidade do consumo de álcool. Nos Estados Unidos, a disputa tem gerado respostas que vão desde movimentos educacionais regionais de moderação até emendas federais à Constituição.

Certamente há evidências do abuso descontrolado de bebidas alcoólicas hoje; quase ninguém negaria. Além disso, a Bíblia condena claramente todas as formas de abuso de álcool, seja através de ordens expressas, seja por exemplos notórios. Contudo a questão ética que está perante nós é: A Bíblia permite um consumo moderado de bebida alcoólica? A questão fundamental é de ordem ética, não cultural ou geográfica; ela requer uma resposta com base bíblica, não emocional.

Três pontos de vista

Entre os evangélicos, as abordagens fundamentais a respeito do álcool podem ser destiladas (sem trocadilhos) em três pontos de vista básicos: (1) Os proibidores, que não toleram de forma alguma o consumo de bebida alcoólica. Os que aderem a esta posição não encontram nenhuma autorização da Escritura para o consumo de álcool, mesmo no período bíblico; (2) Os abstêmios, que desencorajam o uso do álcool em nosso contexto moderno, embora conheçam que ele era usado no período bíblico. Eles apontam a diferença cultural moderna como justificativa para sua distinção: a difusão do alcoolismo (um problema social contemporâneo), bebidas com maior teor alcoólico (desconhecidas nos tempos bíblicos), e a intensificação dos perigos em uma sociedade tecnológica (e.g.: bebida e direção); (3) Os moderados, que defendem uma permissão para o consumo moderado de bebidas alcoólicas. Essa posição, ao reconhecer, lamentar, e condenar todas as formas de abuso e dependência alcoólica, argumenta que a Escritura permite o desfrute de bebidas alcoólicas com discernimento e moderação. 

A importância da questão freqüentemente, a argumentação contra o consumo de bebidas alcoólicas de forma inadvertida e negativa afeta certos aspectos da fé cristã. Ela pode solapar a autoridade da Escritura (através da condenação universal de algo que a Bíblia permite, a autoridade da própria Bíblia é diminuída no pensamento cristão). Isso pode distorcer a doutrina de Cristo (pois a censura universal de algo que o próprio Jesus praticou detrata Sua santidade). E isto afeta negativamente nossa defesa da fé (pois ao negar algo que a Escritura permite tornamos nosso testemunho inconsistente).

Minha abordagem deste tema envolve três pressuposições: (1) A Bíblia é a inerrante Palavra de Deus; (2) portanto, a Bíblia é o padrão determinador e final de toda questão ética; e (3) a Bíblia condena todas as formas de abuso e dependência alcoólica. O ponto de vista moderado de forma alguma compromete qualquer destas três considerações fundamentais.

O vinho na Bíblia

Sem dúvida, o ponto de partida de qualquer discussão racional do assunto deve estar na natureza do vinho na Escritura. A posição moderada diz que o vinho permitido para consumo e uso prudente pelo povo de Deus na Bíblia era de qualidade fermentada, uma bebida de conteúdo alcoólico. Considere a evidência para esta afirmação:

1. Consenso léxico: Os principais léxicos do Antigo e Novo Testamentos e os dicionários etimológicos afirmam que os principais termos para vinho se referem a uma bebida fermentada, um “vinho”, não “suco de uva”. Os termos mais importantes para o debate empregados na Escritura são yayin e shekar (hebraico) e oinos (grego).

2. Consenso da tradução: A maioria das traduções da Bíblia em inglês [e português] traz essas palavras com equivalentes que significam bebidas alcoólicas, ao invés de termos como “suco” ou “suco de uva”, e assim por diante. As traduções incluem “vinho”, “licor”, “bebida” e “bebida forte”.

3. Relação léxica: Uma dos principais termos em nosso debate é shekar (“bebida forte”). Essa é uma forma substantiva do verbo shakar, que significa “embebedar-se”. Essa é uma evidência da capacidade inebriante da shekar.

4. Contexto de uso: Muitos dos versículos que condenam a bebedeira fazem referência a bebidas como yayin, shekar, e oinos. Além disso, em várias passagens, diz-se que yayin “alegra o coração”. Isto seguramente faz referência ao efeito da bebida alcoólica, quando usada moderadamente.

5. Referência descritiva: Em certas passagens na Bíblia o envelhecimento do líquido extraído da uva é especificamente mencionado (Is 25.6; Lc 5.39). O envelhecimento é um fator essencial para que o vinho seja alcoólico.

6. Discernimento exigido: Em algumas ocasiões, cristãos “fortes” são instruídos a abandonar o uso do vinho (Rm. 14:21), quando houver uma séria probabilidade de “fazer tropeçar” (Rm. 14:15) um “irmão fraco” (Rm. 14:1; 15:1). Isto certamente indica o abandono provisório de uma bebida alcoólica, ao invés do suco de uva.

7. Governo eclesiástico: Requer-se que os oficiais da igreja usem vinho em moderação (1Tm. 3:8; Tito 2:3), indicando sua qualidade fermentada e capacidade inebriante.

8. Silêncio bíblico: É interessante notar que não há nenhuma distinção bíblica para vinhos “sãos”. A Escritura não tem uma só recomendação de “vinho novo” (suco fresco de uva) que sobreponha ou substitua o “vinho velho” (bebida fermentada).

A Escritura não tem qualquer recomendação de vinho diluído em lugar do vinho puro (ela nem mesmo elogia o vinho misturado, Is 1.22). A Escritura não traz qualquer encorajamento a se evitar a fermentação, que ocorre naturalmente. Existem evidências de que o vinho era intencionalmente manejado com o fim de acelerar o processo de fermentação (Is 25.6; Jr 48.11).

Uso do vinho na Bíblia

Tendo demonstrado a qualidade fermentada (e conseqüentemente o potencial inebriante) do vinho da Bíblia, irei agora separar algumas evidências bíblicas de seu uso correto.

1. Exemplo prudente: Em Gn 14.18 Melquisedeque deu yayin a Abraão em um contexto correto. Não há nenhuma evidência de qualquer desaprovação divina a este episódio. (Ver também Ne 5.16-19).

2. Uso na adoração: A Escritura ensina que tanto yayin (Ex 29.38ss) como shekar (Nm 28.7) foram usados como oferenda a Deus. Isso é importante por duas razões: (1) essas bebidas (alcoólicas) haviam sido produzidas para adoração, e (2) elas eram oferendas aceitáveis a Deus. Se bebidas alcoólicas fossem impróprias para o consumo humano, por que seriam aceitáveis no culto divino?

3. Benção positiva: A lei de Deus permitia que yayin e shekar fossem adquiridos com a função de alegrar-se e para serem bebidos perante o Senhor. “Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho [yayin] ou bebida forte [shekar], ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa” (Dt 14.26). De fato, o salmista atribui a Deus a produção de yayin, o qual alegra o coração do homem (Sl 104.14-15). Certamente a provisão de Deus tem em vista um emprego justo da bebida alcoólica. Além disso, a Escritura fala da satisfação da vida em termos de comer do pão e beber do yayin com alegria (Ec 9.7).

4. Simbolismo espiritual: O rico simbolismo da revelação da redenção de Deus realça o uso de bebidas fermentadas. As bênçãos da salvação são comparadas à livre provisão de yayin: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Is 55.1). As bênçãos do reino são simbolizadas pela provisão abundante de yayin: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. Mudarei a sorte do meu povo de Israel [...] plantarão vinhas e beberão o seu vinho” (Am 9.13-14). Em outra parte, lemos: “O Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos, pratos gordurosos com tutanos e vinhos velhos bem clarificados” (Is. 25:6). Claramente, vinho — incluindo o vinho meticulosamente envelhecido — é visto como um símbolo das bênçãos de Deus.

5. Testemunho de Cristo: É interessante perceber que nosso Senhor Jesus milagrosamente “fabricou” uma quantidade abundante (João 2:6) de vinho [yayin] para uma festa de casamento. Esse vinho foi considerado “bom” pelo mestre-sala (Jo 2.10) — e os homens preferiam o “vinho velho” [i.e., antigo, fermentado] porque ele era bom (Lc 5.39). Tendo “fabricado” vinho em Seu primeiro milagre, não é surpresa saber que o Senhor o bebeu publicamente. Isto fazia uma distinção clara entre Ele e o asceta João Batista: “Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” (Lc 7.33-34).

6. Ausência de proibição: Em lugar algum a Escritura dá uma ordem universal como: “Não bebam vinho de modo algum”. De fato, os grupos seletos que abandonam o vinho são dignos de menção por agirem de forma diferente ao costume dos tempos bíblicos, como, por exemplo, os Nazireus (Nm 6.2-6) e João Batista (Lc 1.15). Outros são proibidos de ingerir vinho somente durante o exercício formal de seus deveres específicos, a exemplo dos sacerdotes (Lv 10.8-11) e reis (Pv 31.4-5). Todas as proibições quanto ao consumo de vinho envolvem proibições ao abuso ou consumo sem moderação: Não vos embriagueis com vinho (Ef 5.18). Não esteja entre os bebedores de vinho (PV. 23:20). Não seja inclinado a muito vinho (1 Tm 3.8; Tt 2.3). Não se demore em beber vinho (Pv 23:30).

Conclusão

Num tempo em que tudo é dito e feito, devemos distinguir o uso do vinho de seu abuso. Algumas vezes na Bíblia comer como um glutão é posto em paralelo com beber vinho de forma imoderada (Dt 21.20; Pv 23.21). Mas o alimento não é universalmente proibido! Algumas vezes na Escritura a perversão sexual é posta em paralelo com a embriaguez (Rm 13.13; 1 Pe 4.3). Mas nem todas as formas de atividade sexual são proibidas! A riqueza freqüentemente se transforma num laço para o pecador (1 Tm 6.9-11), mas a Escritura não desencoraja totalmente sua aquisição (Jó 42.10-17)! Deus pretende que cada uma destas vertentes da vida seja uma benção para o homem, quando usadas de acordo com Sua justa Lei. Pareceria suficientemente claro, então, que as Escrituras permitissem o consumo moderado de bebidas alcoólicas. A Bíblia não hesita em recomendar o vinho, nem se constrange em retratar seu consumo entre os justos dos tempos bíblicos. O vinho é dado aos santos como uma benção e alegria (Dt 14.26; Sl; 104.14-15), ainda que para o imoderado e perverso ele possa vir a ser escárnio e maldição (Pv 20.1; 23.29-35).


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GENTRY JR, Kenneth L. Tradução de: Márcio Santana Sobrinho. 17 de dezembro de 2008. Aracaju, SE.